terça-feira, 16 de agosto de 2011

Oía e Firá, Santorini

Entre meados do séc. XV e finais do seguinte, antes de Cristo, não há ainda consenso em relação à data correcta, uma tremenda erupção vulcânica pulverizou a cúpula do vulcão da ilha de Thera, como era então conhecida Santorini, pertencente a um arquipélago vulcânico situado no mar Egeu a cerca de 200km de distância de Atenas. Essa brutal explosão dos gases que se formaram por debaixo da lava originou uma profunda cratera que foi prontamente invadida pela água do mar alterando assim toda a configuração da ilha, que hoje em dia tem a forma de uma ferradura. Pensa-se que essa derrocada de milhares de toneladas de rocha e lava teve como consequência a formação de um tsunami gigantesco que contribuiu para a extinção da civilização Minóica em Creta. 


A melhor maneira, a mais espectacular, de se chegar a essa ilha é, sem dúvida, de barco. A primeira impressão que temos quando nos aproximamos do porto, Athinios, ao depararmos com aquelas enormes e íngremes paredes com várias centenas de metros de altura esculpidas na vertical, coroadas por pequenas construções geométricas brancas, algumas das quais parecem vacilar irremediavelmente para o abismo, que mergulham numa miríade de tons rosas, amarelos, ocres e pretos na água densa e azul do mar Egeu, é de assombro.


No extremo norte da ilha deparamos com Oía, uma pequena vila construída no topo da falésia da cratera, Caldera, cujas habitações, em alguns casos, são esculpidas no interior da rocha. As ruas são muito estreitas, quase labirínticas, repletas de escadas, e desembocam em solarengos terraços brancos que por aí proliferam. Como antiga colónia de pescadores possui um pequeno porto, Ammoudi, onde, para quem tem pernas para descer, e depois subir, trezentos degraus bastante altos, se pode dar um mergulho em águas límpidas e calmas e aproveitar alguns dos bares que aí existem. 



Um dos encantos de Oía são as muitas igrejas brancas de cúpulas azuis que por aí se dissimulam, encurraladas no meio da urbe de casas de cores tipicamente mediterrânicas. Mas Oía é famosa, para além da sua culinária, pelo pôr-do-sol que atrai milhares de turistas ao fim da tarde para presenciarem o espectáculo, com o inevitável congestionamento de toda a zona.


Bem perto dali, a cidade de Firá, a zona comercial da ilha, o que no entanto não lhe diminui em nada o encanto, parece que se pendura e precipita vertiginosamente pela falésia abaixo. Amplas e apertadíssimas ruas rasgadas na rocha basáltica, entrecruzando-se em ângulos impossíveis, pejadas de lojas, bares, restaurantes, espaçosas esplanadas e muita animação. Possui ainda um pequeno mas interessante museu de arqueologia. 


Curioso, e eficaz, um dos meios de transporte da cidade, que aliás replica o modelo existente em Athinios para quem chega a Santorini e não quer pagar uma dispendiosa corrida de táxi, consiste na utilização de mulas e de burros para esse efeito. Estes são uma alternativa mais económica do que o teleférico que liga Firá ao seu porto, Skála, embora a íngreme descida com seiscentos degraus não seja tarefa fácil nem para os pobres animais de carga.     


É de Skála que partem muitas das excursões por barco que nos levam às ilhotas de Néa Kaméni, onde se localiza o centro do vulcão ainda activo, como aliás atesta o constante fumo sulfuroso que se liberta do subsolo, e de Paleá Kaméni. Antes de se chegar a esta última ilha é "obrigatório" saltar do barco para a água e nadar até uma zona de fontes quentes termais. Estes passeios marítimos são imprescindíveis.



Santorini está ainda associada à famosa Atlântida de Platão pois é um dos locais mais frequentemente apontados para a localização desse romântico mito. Mas Oía e Firá são reais e um dos legados que o povo grego nos presenteia, duas maravilhas construídas pelo ser humano que urge preservar, pese embora a forte instabilidade geológica, que se manifesta através de terramotos e de erupções vulcânicas, tenha provocado inúmeras catástrofes ao longo dos séculos. Mas ao que os gregos sempre responderam de forma corajosa e perseverante.



fotos: migalha, lda

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Independent People


Não consigo, nunca consegui aliás, nomear alguns livros como os mais importantes que li ao longo da minha vida. Há vários que de uma forma ou de outra me tocaram em diferentes etapas do meu crescimento mas são tantos e tão diversificados que não os consigo nem estratificar, categorizar, nem tão pouco perceber bem o quanto me influenciaram. Há no entanto alguns que ainda hoje, repetidamente, afloram à minha memória perante corriqueiros episódios do dia-a-dia. E este é um desses que está um sem número de vezes presente na minha cabeça, principalmente nestes tempos actuais de grande crise económica, social e de identidade de um povo como o nosso. Independent Peolple, Vintage Books, de 1934-35, do escritor islandês Halldór Laxness, Nobel da Literatura em 1955, é um clássico, um épico. Conta-nos a história do resiliente Bjartur de Summerhouses, pastor e poeta, da sua sacrificada família e da feroz luta dos pequenos proprietários islandeses, numa altura em que o pastoreio de ovelhas deixa de ser uma actividade minimamente rentável, contra as inúmeras dificuldades de um país pobre e constantemente sujeito às tremendas e omnipresentes “forças da natureza”. Dá-nos ainda um panorama político, económico e social, muitas vezes satirizado, as conversas entre os amigos de longa data são de uma fina ironia, dos finais do séc. XIX e início do seguinte naquela grande e agreste ilha. Após 18 anos de servidão na propriedade um grande latifundiário, que profundamente despreza, Bjartur decide comprar ao seu patrão um pequeno, e amaldiçoado, terreno de modo a se poder autonomizar e ser um homem livre, um homem independente. Nada o demoverá de ter sucesso nessa árdua tarefa, nem a constante intempérie nem as agruras da sua própria família. Num Inverno particularmente duro, numa altura de grande carência de alimentos para as suas ovelhas, animais absolutamente essenciais para a sobrevivência nos montes, Bjartur, por falta de pasto disponível, decide, contra a opinião de toda a sua família, matar a sua vaca, única fonte de leite disponível para os seus carenciados filhos:

“No power between heaven and earth shall make me betray my sheep for the sake of a cow. It took me eighteen years´ work to get my stock together. I worked twelve years more to pay off the land. My sheep have made me an independent man, and I will never bow to anyone. To have people say of me that I took the beggar´s road for hay in the spring is a disgrace I will never tolerate.”      

As inúmeras dificuldades porque passam aqueles pequenos proprietários, constantemente aliciados para tomarem posição nos conflitos políticos e económicos dos dirigentes comunitários, levam a que a luta pela sobrevivência, e pela dignidade humana, seja a principal força motora de Bjartur. É interessante perceber, ou aprender, que o maior desafogo na economia doméstica destas gentes se dá precisamente na altura da primeira guerra mundial em que o preço do peixe e da carne sobe exponencialmente, beneficiando assim os pescadores e criadores de gado. São muito curiosos, e sarcásticos, os comentários que o nosso herói, no meio de um grupo de pessoas, tece acerca dessa insana batalha:

“Huh, you´re the first I´ve ever heard say that there was any significance behind these wars of theirs nowadays. They´re just madman, pure and simple. It was another matter altogether in the old days, when your heroes sailed off perhaps to distant quarters of the globe to fight for a peerless woman, or anything else which they considered some sort of flower in their lives. But such is not the case nowadays. Nowadays they fight just from sheer stupidity and obstinacy. But, as I´ve said before, stupidity is all right as long as other people can turn it to account”      

Ao longo do desenrolar do romance conseguimos entender, e perdoar, toda a frieza, crueldade mesmo, de Bjartur e até sentir simpatia e admiração por este homem extremamente orgulhoso, corajoso e céptico em relação às “virtudes humanas”. Num diálogo com um dos seus filhos, quando este pretende emigrar para os Estados Unidos influenciado pelo irmão mais novo que há muito lá vivia, solução essa de vida pior do que a morte segundo as palavras de um seu conhecido de longa data, dá-lhe o seguinte conselho:

“It´s a useful habit never to believe more than half of what people tell you, and not to concern yourself with the rest. Rather keep your mind free and your path your own”

Mas este homem empedernido possuía uma brecha de humanidade quando se tratava da sua filha Asta Solillja, apesar de não ser o seu verdadeiro pai, a única pessoa por quem poderia sentir genuíno amor, embora isso só nos seja revelado no final. Só aí é que nós, os leitores, lhe reconhecemos finalmente alguma sensibilidade e ternura pelo ser humano, algo que ele sempre negou através dos seus actos. Nesta intensa narrativa Laxness vai buscar inspiração, e consistência, às intrincadas e densas sagas islandesas a à tradição da poesia oral daquele povo. Um livro tocante de uma força inesperada que não se pode deixar de ler. Um dos grandes clássicos do século passado. Bjartur é inesquecível, imortal. Independente.      

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Pingvellir, Islândia

Património mundial da UNESCO, Pingvellir, que não se pronuncia como se escreve, é um local emblemático para os islandeses, ou não fosse declarado parque nacional em 1930, um dos primeiros sítios a obter esse estatuto na Europa (“…um local sagrado protegido, uma propriedade da nação islandesa sob a supervisão do parlamento, que nunca poderá ser vendido ou hipotecado.”, dita a lei dessa altura).  


Localizado a nordeste da cidade de Reykjavik é facilmente acessível por estrada, embora esta no Inverno possa ser muito traiçoeira por causa do gelo. Se bem que toda a ilha seja atravessada por um Rifte, de onde divergem as placas tectónicas norte-americana e euro-asiática, é aqui que os vestígios da sua presença, e expansão, aumenta cerca de um centímetro e meio por ano, se manifestam de uma forma minimamente perceptível ao visitante.


O enorme parque engloba um vale com cerca de quatro quilómetros de largura e quarenta metros de profundidade, em relação à cota do terreno envolvente, o maior lago do país, Pingvallatan, o cone do vulcão Skjaldbreidur, já extinto, e o rio Öxará, com as suas pequenas quedas de água gelada. Se bem que há muitas maneiras de se entrar no parque talvez a mais interessante seja a de começar pelo bonito e bem documentado centro turístico, cuja abordagem na comunicação dos seus conteúdos nos atrai e elucida de uma forma cativante.


Aí, para além de se ter uma impressionante visão sobre a vastidão do local, podemos aprender muito sobre Pingvellir, que não se restringe apenas à beleza natural do sítio. É que Pingvellir, que significa, numa tradução simplista e literal, planície da assembleia, era, entre os anos 930 e 1798, o local onde o Althing, ou “assembleia” islandesa, se reunia. Era aqui que os chefes e populações se encontravam todos os verões para discutir leis, resolver conflitos, socializar e aprofundar a sua identidade enquanto povo.


Após essa interessante e educativa visita o mais aconselhável é entrar no parque a pé através de uma estreita passagem que se desenvolve ao longo de uma enorme parede rochosa do rifte, a Almannagjá, com vários quilómetros de comprimento. Essa massa inerte basáltica, que parece que se vai desagregar a qualquer momento, é misteriosa e imponente. Seguindo esse percurso chega-se a Logberg, espaço onde presumivelmente eram feitos os discursos às massas.  


Embora não se vejam muito claramente os fragmentos de dezenas de antigos abrigos temporários dos clãs, construídos com pedra e turfa, estes locais estão relativamente bem documentados ao longo de vários painéis informativos. O famoso livro do século XII, Book of the Icelenders, Islendlingabók na língua nativa, que descreve os primeiros passos da história da Islândia, dedica uma parte da sua escrita à intensa procura por um espaço conveniente para albergar uma assembleia comunitária, que teria de se localizar numa zona facilmente acessível para todos. E de facto encontraram um lugar muito especial para o efeito.  


Aconselho vivamente, para quem tenha tempo, a passar lá um dia inteiro a deambular pela planície ao longo do rio Öxará. Na direcção do edifício de madeira da igreja, de 1859, pode ver-se a profunda fissura Flosagjá e, no seu extremo, a piscina de águas límpidas Peningagjá. Com ainda mais tempo o visitante pode optar, no verão, por pescar no lago Pingvallatan, mergulhar nas águas geladas do rifte Silfra, onde certamente se deslumbrará com a enorme visibilidade e com as impressionantes paredes verticais das duas placas tectónicas, ou optar por outras actividades ao ar livre.


Perto de uma outra entrada para o parque, mais a este ao longo da estrada principal, existe um pequeno café/restaurante/loja que tem, opinião muito pessoal, os melhores cachorros quentes da Islândia, que são aqui neste país uma verdadeira instituição. É um justo prémio para um dia bem passado no meio de tão rica história e deslumbrante natureza.


fotos: migalha, lda

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Cong, Condado de Mayo

Um bom sítio para se começar a explorar o Condado de Mayo, a oeste da República da Irlanda, é a pequena vila de Cong. Confesso que nunca tinha ouvido falar desta zona antes de ter lido, numa dessas revistas de avião que se folheiam por tédio, uma entrevista com a reputada Chef Tamasin Day-Lewis, irmã do conhecido actor Daniel, que tem aí uma casa de férias. Absorvi todo o seu entusiasmo pela beleza do local e sabia que seria um destino a conhecer assim que aterrasse naquele país. Agora compreendo o seu fascínio por esses locais de idílicas paisagens.



Situada numa estreita língua de terra entre dois lagos, Lough Corrib e Lough Mask, Cong é uma vila encantadora onde se pode apreciar, entre muitos dos seus encantos, as ruínas da sua famosa abadia medieval, um mosteiro agostiniano do século XII, erigido por Turlough O´Connor, rei de Connaught. Pensa-se que foi aí que morreu Ruaidrí Ua Conchobair, último rei irlandês antes da invasão normanda.


Toda a área é rodeada por frondosa vegetação onde abundam pequenos lagos, diques, igrejas parcialmente escondidas, caminhos improváveis e magníficos jardins. Passear por essas terras é como fazer uma viagem ao passado. A vila em si, praticamente rodeada por cursos de água, tem uma ou duas pensões para se pernoitar, umas lojas de artesanato, alguns cafés e pouco mais do que isso. Foi aqui que John Ford filmou “The Quiet Man”, que aliás lhe traria mais um Óscar para melhor realizador. Numa entrevista que deu aos Cahiers em 1966, Ford, com humor, refere-se a este filme como sendo a prova que afinal não era tão puritano quanto as pessoas o faziam. Talvez tivesse ficado seduzido nessas longínquas terras pela envolvente romântica do local…  



Em meados do século XIX tentou-se construir um canal navegável que ligasse os dois lagos mas o projecto foi um autêntico fracasso. A porosidade do seu leito calcário fazia com que a água se infiltrasse pelo que nunca funcionou. Ainda se podem ver troços desse estranhíssimo Dry Canal.


Mesmo ao lado de Cong encontra-se o magnífico Ashford Castle, fundado em 1228 e parcialmente reconstruído em finais do século XIX por Lord Ardilaun, da famosa família Guiness, que é hoje em dia um dos mais luxuosos e exclusivos hotéis da Irlanda. Vale a pena consultar o site www.ashford.ie para se verem as fotos aéreas do local pois fica-se com uma ideia da grandiosidade de todo aquele imenso espaço. O hotel também é acessível por barco directamente de Galway, importante cidade universitária e centro das regiões de língua gaélica do oeste irlandês.



A beleza da propriedade, constituída por vários jardins, frondosos bosques e abundantes cursos de água, acessíveis a todos os visitantes, convida a um passeio por entre os seus imensos trilhos, mais ou menos definidos, que nos levam a zonas surpreendentes e algo misteriosas. É útil levar botas pois os caminhos, em função da humidade existente na zona, por vezes, tornam-se bastante difíceis e lamacentos. As surpresas são muitas e, em alguns pontos, deparamos com estranhas estruturas deixadas pelos monges que por aí habitaram. É ir e descobrir...



fotos: migalha, lda

segunda-feira, 28 de março de 2011

Seinäjoki e Alvar Aalto

A uns 350 quilómetros a nordeste de Helsínquia podemos encontrar a pequena cidade de Seinäjoki, uma pérola da arquitectura moderna, ou não tivesse o seu centro sido desenhado pelo grande mestre finlandês Alvar Aalto. Todo o processo começou com o concurso para uma igreja, que ele mais tarde denominou Lakeuden Risti, “A Cruz da Planície”, que ganhou no início dos anos cinquenta do século passado e cuja construção se concluiu no final dessa década. Convém referir que Seinäjoki é um centro religioso luterano importante com grande influência na zona central e no norte da Finlândia, pelo que se entende a importância estratégica desta muito depurada igreja cujas enormes portas laterais podem deslizar sobre calhas abrindo e prolongando o espaço interior para um largo relvado que tem capacidade para acolher cerca de 15.000 pessoas aquando da celebração de serviços religiosos.



Numa altura em que a igreja já estava a ser construída, o arquitecto/designer voltou a ganhar um outro concurso para o desenho do novo centro de Seinäjoki, em cujo programa constava uma câmara municipal, uma biblioteca, um teatro e vários edifícios administrativos. No projecto que apresentou Aalto pensou em três grandes áreas quadradas interligadas entre si, duas das quais pedonais. A primeira em redor da sua igreja, a segunda incorporava os vários edifícios referidos anteriormente e a terceira foi concebida como uma zona, meio escondida das outras duas, para circulação e estacionamento de automóveis. É um prazer deambular por entre esses alargados espaços, em que a sensação que desde logo nos domina, para além da qualidade estética do bem preservado conjunto arquitectónico, é o equilíbrio entre os espaços pedonais e os edifícios que os envolvem. Atente-se no cuidado que o arquitecto colocou em todos os pormenores, desde os equipamentos urbanos, especialmente nos candeeiros públicos, até aos materiais utilizados nos edifícios e nos pisos exteriores. 



Após uma demorada visita à elegante e muito tranquila igreja vale a pena pagar um euro e subir no elevador manhoso até ao topo da torre da mesma. De lá de cima pode-se apreciar a suavidade da cidade, a sua lógica relativa ao ordenamento dos espaços habitáveis, as suas cores e, como em qualquer outra área habitada naquele magnífico país escandinavo, grande ou pequena, muitos e cuidados espaços verdes, numa simbiose perfeita entre produção humana e paisagem natural. Ao fundo, algumas envergonhadas montanhas a dar um pouco de relevo à planície. Depois, não parta sem antes ter entrado na biblioteca para apreciar o mobiliário em madeira e aquele especial tecto ondulado tão característico das obras de Aalto.


Há no entanto uma outra particularidade, aparentemente invulgar nesta zona do globo, que é a apetência das suas gentes pelo tango, sim, tango finlandês, algo diferente do argentino mas dançado com a mesma garra, ou pelo menos, com o mesmo tipo de sentimento, embora neste caso com alma nórdica. No verão a cidade é palco de vários importantes festivais de música, entre os quais se destaca, como não podia deixar de ser naquela que é denominada capital finlandesa do tango, o Tangomarkkinat.


fotos: migalha, lda

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Vale da Paixão


Lídia Jorge é uma grande contadora de histórias, como aliás atestam todos os prémios que tem recebido ao longo dos anos. A sua escrita é fluida e os seus contos lêem-se com prazer, muito prazer. O Vale da Paixão, 1998, tem no entanto uma característica singular no universo literário desta escritora; o seu início é absolutamente avassalador. Tem de se ler duas a três vezes, pelo menos, as primeiras páginas do livro para podermos começar a interiorizar a mensagem. Atente-se, parafraseando Eduardo Prado Coelho na contra capa do romance, na “espantosa força do seu arranque”:

“Como na noite em que Walter Dias visitou a filha, de novo os seus passos se detêm no patamar, descalça-se rente à parede com a agilidade de uma sombra, prepara-se para subir a escada, e eu não posso dissuadi-lo nem detê-lo, pela simples razão de que desejo que atinja rapidamente o último degrau, abra a porta sem bater e entre pelo limiar apertado, sem dizer uma palavra. E foi assim que aconteceu. Ainda o tempo de reconstituir esses gestos não tinha decorrido, e ele já se encontrava a meio do soalho segurando os sapatos com uma das mãos. Chovia nessa noite distante de Inverno sobre a planície de areia, e o ruído da água nas telhas protegia-nos dos outros e do mundo como uma cortina cerrada que nenhuma força humana poderia rasgar. De outro modo, Walter não teria subido nem teria entrado no interior do quarto.”  

A história centra-se na intricada trama, pelo menos na forma como a autora a narra, em redor dos elementos da família Dias, num cenário rural em meados do século passado e, mais tarde, do fenómeno da emigração e suas consequências para o clã. Mas tudo começa na grave ofensa, “abalroamento”, praticada pelo filho mais novo de Francisco Dias que influenciará para sempre a vida de todos. Aquele, que não teve coragem, ou vontade, para assumir as suas responsabilidades, parte, enquanto militar, para Goa e a família, que acaba por compensar o erro praticado, a pouco e pouco, retoma a normalidade, a azáfama diária, até que, contrariamente ao sentido apelo do pai para que ele não volte mais, eis que o “trotamundos” reaparece e com ele a inquietude à casa de Valmares:

“Ouço o rodado do táxi e o próprio táxi. Walter chegando ao pátio e os animais, irrequietos, a escarvar perto do trem, os animais em sobressalto, parando. O deslizar suave do táxi sobre a lama, depois sobre a pedra, o rodado brando dos pneus chegando. Em sessenta e três, o táxi era ainda um transporte raro. Dentro do táxi escuro vinha um homem de gabardina clara com cigarro aceso. Primeiro saiu a aba da gabardina, em seguida a mão com o cigarro, a seguir saiu a cabeleira curta, o corpo apareceu por inteiro, mas só depois, quando nos olhou, sobre a calçada, surgiu o soldado Walter.”

Não há dúvida que neste livro as imagens da escritora têm um vigor que nos deixam sempre na expectativa naquilo que virá depois, prendendo-nos página após página até ao epílogo final. Para além disso, a maneira como Lídia Jorge nos impõe a história e como retrata psicologicamente os personagens, com os seus defeitos, os seus podres, e todas as suas virtudes, cria em nós uma simbiose com aquele mundo imaginário que até poderia ser na realidade o nosso. Comovente o derradeiro encontro, em Buenos Aires, entre Walter e a filha. E mais não digo, ou melhor, digo, leiam o livro…

sexta-feira, 11 de março de 2011

Meridiano de Sangue


Cormac McCarthy é um dos meus escritores contemporâneos favoritos. Embora não seja um autor de leitura fácil, as suas exaustivas e barrocas descrições das paisagens envolventes chegam a ser exasperantes, a densidade e construção dos enredos são normalmente geniais. Meridiano de Sangue, Blood Meridian or the Evening Redness in the West, de 1985, cuja temática é de uma crueldade quase insuportável, um livro em que a barbárie é omnipresente, o “apocalipse por excelência”, segundo as palavras de Harold Bloom, talvez seja a sua mais importante obra até ao momento. E digo talvez pois a qualidade geral das suas narrativas é de tal modo elevada que me é difícil enquadrá-las numa escala de valores. Este inquietante livro que se inspira em acontecimentos históricos, decorridos em meados do séc. XIX, na fronteira entre o México e os EUA, descreve a violência perpetrada por um bando de facínoras, liderado pelo odioso capitão John Joel Glanton, contratado pelos mexicanos para matar e escalpelar índios Apache, e desenvolve-se à volta das suas duas principais personagens; o “rapaz”, baleado junto ao coração logo na segunda página, e o juiz Holden, que nos promete, e nunca saberemos se com razão, que nunca morrerá, sádico, violador de crianças, assassino, temido mas também endeusado pelos seus pares:

“O juiz olhou à sua volta. Sentado diante do fogo estava nu, à parte as ceroulas, e tinha as mãos apoiadas nos joelhos, de palmas para baixo. Os olhos eram frestas vazias. Entre os membros do bando, ninguém fazia a mais pequena ideia do que esta postura significava, e todavia, ali sentado, ele assemelhava-se tanto a um ícone que eles começaram a mostrar-se cautelosos e falavam entre si com ar circunspecto, como se não quisessem despertar uma criatura que fosse preferível deixar dormir.”  

O bando circula constantemente por essa fronteira texana, ao longo de agrestes regiões, à caça das suas futuras vítimas e, por onde passa, deixa invariavelmente uma indelével mancha de sangue e brutalidade. Mais tarde, e de acordo com a história real, grande parte do grupo, incluindo Glanton, será por sua vez dizimado num impiedoso acto de vingança dos índios Yuma, também aqui descrito, ou romanceado, por McCarthy. Desde já alerto que esta obra não é para pessoas impressionáveis pois algumas descrições dos massacres, muitos e variados, são bastante arrepiantes:

“… e um dos delawares emergiu do fumo com um bebé despido a baloiçar de cada punho e acocorou-se junto a um anel de pedras que delimitava um monturo e ergueu-os pelos calcanhares, primeiro um, depois o outro, e bateu-lhes com a cabeça contra as pedras, de modo que os miolos jorraram pela fontanela num vómito sanguinolento,…”

Em toda a narrativa os diálogos, rudes, são frugais e parcos e o autor dá-nos a conhecer o enredo através da constante acção, que vai muito para além da simples violência, do movimento e das pausas dos seus personagens, num bem demarcado jogo do claro e escuro, luz e trevas, que cativam o leitor da primeira à última página. Os monólogos do juiz, a ler com redobrada atenção, são absolutamente brilhantes. O diálogo final entre o “rapaz”, agora já homem, e o juiz, sempre sem idade aparente, quando se encontram casualmente muitos anos depois num bar em que se desenrola um bailarico é muito forte e premonitório do terrível desenlace final. O epílogo é enigmático e deixa uma qualquer porta aberta, para o quê não se sabe bem.