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sábado, 21 de janeiro de 2012

The Revolution Betrayed

The Revolution Betrayed, de Leon Trotsky, escrito no seu conturbado exílio na Noruega em 1936, é um testemunho claro, conciso e muito bem estruturado que nos permite apreender os ideais “românticos” da revolução socialista na União Soviética e conhecer as convulsões sociais decorrentes desse movimento revolucionário. Também nos transmite as pouco animadoras perspectivas futuras do processo político em curso pois que, segundo ele, o país se encaminhava a passos largos para o ressurgimento do capitalismo, em virtude das repressoras atitudes da direcção do partido bolchevista, liderado por Stalin, e da reaccionária burocracia instituída. Curioso como o tempo lhe veio a dar razão… Na sua perspicaz e contundente crítica à nova burocracia soviética, que a desmobilização de milhões de combatentes do exército vermelho vai fazer engordar exponencialmente, enquanto classe omnipresente e dominante, Trotsky escreve:

In its intermediary and regulating function, its concern to maintain social ranks, and its exploitation of the state apparatus for personal goals, the Soviet bureaucracy is similar to every other bureaucracy, especially the fascist. But there are also vast differences. In no other regime, outside the Soviet, has a bureaucracy ever achieved such a degree of independence from the dominating class. In bourgeois society, the bureaucracy represents the interests of a possessing and educated class, which has at its disposal innumerable means of everyday control over its administration of affairs. The Soviet bureaucracy has risen above a class which is hardly emerging from destitution and darkness, and has no tradition of dominion or command. Whereas the fascists, when they find themselves in power, are united with the big bourgeoisie by bonds of common interest, friendship, marriage, etc., the Soviet bureaucracy takes on bourgeois customs without having beside it a national bourgeoisie. In this sense we cannot deny that it is something more than a bureaucracy. It is in the full sense of the word the sole privileged and commanding stratum in Soviet society.

Neste precioso documento que Trotsky nos legou, que é sem dúvida uma das mais importantes obras de ciência política sobre o período revolucionário soviético e a dinâmica da sua sociedade no início do século passado, ainda por cima escrita por um intelectual e dirigente de primeira linha daquela altura, são-nos apresentados tão diversos como bem escalpelizados temas acerca da guerra civil soviética, economia e planeamento central, colectivização e posteriores consequências, família, cultura, arte, política externa, etc. Também aqui é bem patente a preocupação de Trotstky, e Lenin, no sentido da implementação do movimento comunista numa perspectiva internacional, segundo os ensinamentos de Marx, mais propriamente como uma luta dos trabalhadores do centro da Europa, única maneira possível de se alcançarem os objectivos pretendidos, e não apenas como um movimento de cariz exclusivamente local, nacional, pensamento esse em clara contradição com aquilo que Stalin enunciará mais tarde; “socialism in one country”. De forma a que possamos entender melhor alguns dos conceitos por detrás dos seus pensamentos políticos o autor, aqui e ali, presenteia-nos com simples concepções de socialismo, este como “estádio mais baixo do comunismo” (Marx), que se construiria a partir de uma base de prosperidade social e económica sólida, e de comunismo, que nos levam a reflectir sobre a generosidade da filosofia do novo sistema:

Socialism, if it is worthy of the name, means human relations without greed, friendship without envy and intrigue, love without base calculation.

The material premise of communism should be so high a development of the economic powers of man that productive labour, having ceased to be a burden, will not require any goad, and the distribution of life’s goods, existing in continual abundance, will not demand – as it does not now well-off family or decent boarding-house – any control except that of education, habit and social opinion.  

São bem humoradas as suas farpas dirigidas aos intelectuais e burgueses estrangeiros, amigos do novo poder bolchevista, os “turistas radicais”, sempre prontos a defender a nova sociedade soviética sem qualquer sentido crítico acerca dos abusos cometidos durante o processo revolucionário e do desastre que se avizinha, que aliás conhecemos bem pois perduraram até à queda desse regime totalitarista:

The “friends” of the Soviet Union have a professional habit of collecting impressions with closed eyes and cotton in their ears.

Trotsky questiona-se ainda como foi possível que dentro do partido comunista a facção com menos ideias e mais erros cometidos ao longo do percurso tenha conseguido alcançar um poder ilimitado em relação a todas as outras. Desmonta uma por uma todas as contradições da classe dirigente daquela época e é particularmente crítico com a juventude obediente e amorfa que engrossava as fileiras do partido e que servia apenas para alimentar a máquina burocrática. É suficientemente lúcido para fazer um mea culpa sobre o terrível processo de colectivização e de outros erros cometidos durante a revolução. Pese embora tudo por que passou, expulsão do partido comunista e posterior perseguição e deportação, este não é o livro de uma pessoa ressentida com os acontecimentos, para além de que nunca se vitimiza por todo o sofrimento que lhe foi imposto. Trotsky seria cobardemente assassinado em 1940 no México a mando da polícia secreta soviética.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

The Corrections


The Corrections, de Jonathan Frazen, passou despercebido entre nós até surgir em Portugal o seu mais recente livro, Liberdade (escrito quase uma década depois do anterior). O escritor, que gosta de abordar detalhada e ironicamente as personagens das suas obras, tem a habilidade de nos fixar nas suas narrativas utilizando uma técnica muito comum em best sellers que consiste em interromper bruscamente num determinado momento a acção e em só a retomar vários capítulos mais tarde. É óbvio que isso em nada diminui a consistência da sua escrita mas esta apetência para agradar “quer a um público literato quer popular” tem-lhe valido algumas críticas menos agradáveis. No entanto, utilizando esse “estratagema” e conseguindo uma interacção perfeita entre os espaços da acção e os diversos tempos da narrativa, e é com grande mestria e eficácia que ele interliga o presente e o passado, Jonathan Frazen, um escritor bastante mediático nos Estados Unidos, faz com que o ávido leitor queira sempre mais e mais até às páginas finais! Em The Corrections o autor aborda, com humor subtil, a temática de uma algo conflituosa família americana, conservadora, do midwest, em finais dos noventa do século passado, os Lamberts. Albert, o patriarca, engenheiro ferroviário, inventor, sofre de Parkinson num estado avançado pelo que tem já grandes dificuldades de mobilidade, assim como algum grau de demência, enquanto Enid, sua esposa, que suporta o enorme desgaste da vida conjugal devido à terrível doença do primeiro, tudo faz para conseguir reunir em sua casa pelo Natal, talvez pela última vez, todos os seus três filhos. Mas essa não será uma tarefa fácil. Gary, o primogénito, executivo, deprimido, sofre uma tremenda resistência a essa ideia por parte da sua mulher, Caroline, algumas das sequências dessa “guerrilha” são hilariantes, pois que esta não “morre de amores” pela família Lambert. Chip, o eterno favorito do pai, recentemente expulso da faculdade onde leccionava, por se ter envolvido com uma estudante, enreda-se profissionalmente num esquema fraudulento pela Internet (e há aqui uma crítica mais do que implícita ao crash do início do novo milénio das famosas “dot-com”) com o marido da última amante e vai temporariamente viver para a Lituânia. Denise, a filha mais nova, talvez a personagem mais complexa e excitante do livro, reputada chef, responsável por um dos restaurantes mais badalados de Filadélfia, envolve-se intimamente com a família do seu patrão, o que, mais tarde, acaba por lhe valer o emprego. Sendo esta a mais sensível aos problemas dos pais é aquela que entre os irmãos mais luta para ver toda a família junta no Natal, pese embora a sua precária condição emocional. Mas Denise, saberemos no final, é também a responsável por alguns equívocos nunca verdadeiramente esclarecidos no interior do seio familiar… Jonathan Frazen consegue, de uma forma aparentemente simples, apresentar-nos com mestria os traços psicológicos de cada um dos personagens deste livro e a forma como se entrelaçam é bastante cativante e consistente. Não os julga, nunca o faz, expõe-os antes sem qualquer juízo de valores, sem se preocupar com avaliações de carácter moral ou outros. Comovente o desenvolvimento da doença de Albert e todas as dificuldades pelas quais a família passa com a mesma:

The human species was given dominion over the earth and took the opportunity to exterminate other species and warm the atmosphere and generally ruin things in its own image, but it paid this price for its privileges: that the finite and specific animal body of this species contained a brain capable of conceiving the infinite and wishing to be infinite itself.

O escritor assina aqui uma inteligente crónica social que a ninguém deixa indiferente. Ou, para além do prestigiado National Book Award, não tivesse vendido já mais de três milhões de exemplares só nos Estados Unidos da América.      

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Rabos de Lagartixa

  
Rabos de Lagartixa, Publicações Dom Quixote, do catalão Juan Marsé, é um livro incontornável que nos presenteia uma estrutura narrativa bem imaginada, com diálogos simples e hilariantes o que, de certa forma, suaviza toda a emotividade e tristeza implícita na história. Tudo se passa num bairro de Barcelona no pós-guerra civil espanhola. David, adolescente, aprendiz de fotógrafo e cinéfilo, e o seu amigo Paulino Bardolet, o gorducho das maracas sarapintadas, procuram lagartixas para lhes cortar o rabo na esperança de conseguirem curar as hemorróidas do segundo, pese embora o primeiro opine que só com palabartixas de Ibiza, espécie rara, o efeito será o desejado. David tem um amor especial por Faísca, o seu cãozito velho e decrépito, quase putrefacto. David, nas suas noites mal dormidas, “conversa” com o seu grande e confidente herói, um intrépido aviador da força aérea britânica, numa malfadada altura em que este, após se despenhar com o seu Spitfire, se encontra rodeado de ameaçadores soldados alemães. David, nas suas deambulações ensimesmadas, discute e recolhe preciosas informações com a presença imaginada do seu pai, há muito desaparecido vítima da perseguição da polícia política espanhola. Por vezes troca umas palavras com Juan, o seu irmão mais velho morto por uma bomba na Gran Via. David, repudia as atitudes e conversas entre a sua mãe grávida, a sensual ruiva Rosa Bartra, e o sinistro inspector Galván, da odiada Brigada Político-Social, que despreza e de quem, mais tarde, procurará vingar-se. David, invectiva o seu futuro irmão, o “girino”, que no futuro escreverá toda esta deliciosa história, enquanto este se enrosca na placenta da grande barriga de Rosa. O poster da orelha deixado para trás pelo doutor P. J. Rosón-Ansio, otorrinolaringologista cordovês, de filiação anarquista, tem uma presença forte e determinante no quarto de David e talvez possa explicar porque é que o nosso jovem protagonista ouve tantos e constantes murmúrios dentro da sua cabeça. Parece confuso? David, no início do livro, dá o mote ao leitor de como se desenrolará a bem humorada trama quando responde ao inspector, numa altura em que este o interroga sobre o paradeiro do pai:

Tivemos, mas são notícias do ano da Maria Cachucha, e não são boas – entoa David abafando um bocejo forçado e um repentino calafrio dentro do jersey de angorina, que lhe fica pequeno e deixa ver o umbigo. – Recebemos uma carta dele, e afinal não está onde julgávamos… Eu conto-lhe. Ele disse sempre que empreenderia uma longa viagem ao centro de África, desde Cartum até ao Lago Vitória passando pelos Montes Azuis, mas não, afinal à última hora mudou de plano. Está a embrenhar-se cada dia mais na selva de Mindanao, sabe onde isso fica, bwana? Nas Filipinas. E diz que teve de se disfarçar de Juramentado para prender Datu e todos os que traficam com peles de porco e dentes de elefante. E ainda há mais. Diz que é mentira que os Juramentados morram de medo se os envolvem numa pele de porco. Mentira vil.

Juan Marsé consegue conciliar o real com o imaginário e ainda arrumar com mestria um constante saltitar entre o tempo no qual a acção decorre. O narrador, o futuro irmão, ainda por nascer, conta-nos uma deliciosa história em que é muito ténue a fronteira entre o bem e o mal, o ético e o amoral. Na capa do livro aparece uma citação de António Lobo Antunes a elogiar o autor, o que, digamos, não é algo de muito comum. Vale mesmo a pena ler este premiado livro.   

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Independent People


Não consigo, nunca consegui aliás, nomear alguns livros como os mais importantes que li ao longo da minha vida. Há vários que de uma forma ou de outra me tocaram em diferentes etapas do meu crescimento mas são tantos e tão diversificados que não os consigo nem estratificar, categorizar, nem tão pouco perceber bem o quanto me influenciaram. Há no entanto alguns que ainda hoje, repetidamente, afloram à minha memória perante corriqueiros episódios do dia-a-dia. E este é um desses que está um sem número de vezes presente na minha cabeça, principalmente nestes tempos actuais de grande crise económica, social e de identidade de um povo como o nosso. Independent Peolple, Vintage Books, de 1934-35, do escritor islandês Halldór Laxness, Nobel da Literatura em 1955, é um clássico, um épico. Conta-nos a história do resiliente Bjartur de Summerhouses, pastor e poeta, da sua sacrificada família e da feroz luta dos pequenos proprietários islandeses, numa altura em que o pastoreio de ovelhas deixa de ser uma actividade minimamente rentável, contra as inúmeras dificuldades de um país pobre e constantemente sujeito às tremendas e omnipresentes “forças da natureza”. Dá-nos ainda um panorama político, económico e social, muitas vezes satirizado, as conversas entre os amigos de longa data são de uma fina ironia, dos finais do séc. XIX e início do seguinte naquela grande e agreste ilha. Após 18 anos de servidão na propriedade um grande latifundiário, que profundamente despreza, Bjartur decide comprar ao seu patrão um pequeno, e amaldiçoado, terreno de modo a se poder autonomizar e ser um homem livre, um homem independente. Nada o demoverá de ter sucesso nessa árdua tarefa, nem a constante intempérie nem as agruras da sua própria família. Num Inverno particularmente duro, numa altura de grande carência de alimentos para as suas ovelhas, animais absolutamente essenciais para a sobrevivência nos montes, Bjartur, por falta de pasto disponível, decide, contra a opinião de toda a sua família, matar a sua vaca, única fonte de leite disponível para os seus carenciados filhos:

“No power between heaven and earth shall make me betray my sheep for the sake of a cow. It took me eighteen years´ work to get my stock together. I worked twelve years more to pay off the land. My sheep have made me an independent man, and I will never bow to anyone. To have people say of me that I took the beggar´s road for hay in the spring is a disgrace I will never tolerate.”      

As inúmeras dificuldades porque passam aqueles pequenos proprietários, constantemente aliciados para tomarem posição nos conflitos políticos e económicos dos dirigentes comunitários, levam a que a luta pela sobrevivência, e pela dignidade humana, seja a principal força motora de Bjartur. É interessante perceber, ou aprender, que o maior desafogo na economia doméstica destas gentes se dá precisamente na altura da primeira guerra mundial em que o preço do peixe e da carne sobe exponencialmente, beneficiando assim os pescadores e criadores de gado. São muito curiosos, e sarcásticos, os comentários que o nosso herói, no meio de um grupo de pessoas, tece acerca dessa insana batalha:

“Huh, you´re the first I´ve ever heard say that there was any significance behind these wars of theirs nowadays. They´re just madman, pure and simple. It was another matter altogether in the old days, when your heroes sailed off perhaps to distant quarters of the globe to fight for a peerless woman, or anything else which they considered some sort of flower in their lives. But such is not the case nowadays. Nowadays they fight just from sheer stupidity and obstinacy. But, as I´ve said before, stupidity is all right as long as other people can turn it to account”      

Ao longo do desenrolar do romance conseguimos entender, e perdoar, toda a frieza, crueldade mesmo, de Bjartur e até sentir simpatia e admiração por este homem extremamente orgulhoso, corajoso e céptico em relação às “virtudes humanas”. Num diálogo com um dos seus filhos, quando este pretende emigrar para os Estados Unidos influenciado pelo irmão mais novo que há muito lá vivia, solução essa de vida pior do que a morte segundo as palavras de um seu conhecido de longa data, dá-lhe o seguinte conselho:

“It´s a useful habit never to believe more than half of what people tell you, and not to concern yourself with the rest. Rather keep your mind free and your path your own”

Mas este homem empedernido possuía uma brecha de humanidade quando se tratava da sua filha Asta Solillja, apesar de não ser o seu verdadeiro pai, a única pessoa por quem poderia sentir genuíno amor, embora isso só nos seja revelado no final. Só aí é que nós, os leitores, lhe reconhecemos finalmente alguma sensibilidade e ternura pelo ser humano, algo que ele sempre negou através dos seus actos. Nesta intensa narrativa Laxness vai buscar inspiração, e consistência, às intrincadas e densas sagas islandesas a à tradição da poesia oral daquele povo. Um livro tocante de uma força inesperada que não se pode deixar de ler. Um dos grandes clássicos do século passado. Bjartur é inesquecível, imortal. Independente.      

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Vale da Paixão


Lídia Jorge é uma grande contadora de histórias, como aliás atestam todos os prémios que tem recebido ao longo dos anos. A sua escrita é fluida e os seus contos lêem-se com prazer, muito prazer. O Vale da Paixão, 1998, tem no entanto uma característica singular no universo literário desta escritora; o seu início é absolutamente avassalador. Tem de se ler duas a três vezes, pelo menos, as primeiras páginas do livro para podermos começar a interiorizar a mensagem. Atente-se, parafraseando Eduardo Prado Coelho na contra capa do romance, na “espantosa força do seu arranque”:

“Como na noite em que Walter Dias visitou a filha, de novo os seus passos se detêm no patamar, descalça-se rente à parede com a agilidade de uma sombra, prepara-se para subir a escada, e eu não posso dissuadi-lo nem detê-lo, pela simples razão de que desejo que atinja rapidamente o último degrau, abra a porta sem bater e entre pelo limiar apertado, sem dizer uma palavra. E foi assim que aconteceu. Ainda o tempo de reconstituir esses gestos não tinha decorrido, e ele já se encontrava a meio do soalho segurando os sapatos com uma das mãos. Chovia nessa noite distante de Inverno sobre a planície de areia, e o ruído da água nas telhas protegia-nos dos outros e do mundo como uma cortina cerrada que nenhuma força humana poderia rasgar. De outro modo, Walter não teria subido nem teria entrado no interior do quarto.”  

A história centra-se na intricada trama, pelo menos na forma como a autora a narra, em redor dos elementos da família Dias, num cenário rural em meados do século passado e, mais tarde, do fenómeno da emigração e suas consequências para o clã. Mas tudo começa na grave ofensa, “abalroamento”, praticada pelo filho mais novo de Francisco Dias que influenciará para sempre a vida de todos. Aquele, que não teve coragem, ou vontade, para assumir as suas responsabilidades, parte, enquanto militar, para Goa e a família, que acaba por compensar o erro praticado, a pouco e pouco, retoma a normalidade, a azáfama diária, até que, contrariamente ao sentido apelo do pai para que ele não volte mais, eis que o “trotamundos” reaparece e com ele a inquietude à casa de Valmares:

“Ouço o rodado do táxi e o próprio táxi. Walter chegando ao pátio e os animais, irrequietos, a escarvar perto do trem, os animais em sobressalto, parando. O deslizar suave do táxi sobre a lama, depois sobre a pedra, o rodado brando dos pneus chegando. Em sessenta e três, o táxi era ainda um transporte raro. Dentro do táxi escuro vinha um homem de gabardina clara com cigarro aceso. Primeiro saiu a aba da gabardina, em seguida a mão com o cigarro, a seguir saiu a cabeleira curta, o corpo apareceu por inteiro, mas só depois, quando nos olhou, sobre a calçada, surgiu o soldado Walter.”

Não há dúvida que neste livro as imagens da escritora têm um vigor que nos deixam sempre na expectativa naquilo que virá depois, prendendo-nos página após página até ao epílogo final. Para além disso, a maneira como Lídia Jorge nos impõe a história e como retrata psicologicamente os personagens, com os seus defeitos, os seus podres, e todas as suas virtudes, cria em nós uma simbiose com aquele mundo imaginário que até poderia ser na realidade o nosso. Comovente o derradeiro encontro, em Buenos Aires, entre Walter e a filha. E mais não digo, ou melhor, digo, leiam o livro…

sexta-feira, 11 de março de 2011

Meridiano de Sangue


Cormac McCarthy é um dos meus escritores contemporâneos favoritos. Embora não seja um autor de leitura fácil, as suas exaustivas e barrocas descrições das paisagens envolventes chegam a ser exasperantes, a densidade e construção dos enredos são normalmente geniais. Meridiano de Sangue, Blood Meridian or the Evening Redness in the West, de 1985, cuja temática é de uma crueldade quase insuportável, um livro em que a barbárie é omnipresente, o “apocalipse por excelência”, segundo as palavras de Harold Bloom, talvez seja a sua mais importante obra até ao momento. E digo talvez pois a qualidade geral das suas narrativas é de tal modo elevada que me é difícil enquadrá-las numa escala de valores. Este inquietante livro que se inspira em acontecimentos históricos, decorridos em meados do séc. XIX, na fronteira entre o México e os EUA, descreve a violência perpetrada por um bando de facínoras, liderado pelo odioso capitão John Joel Glanton, contratado pelos mexicanos para matar e escalpelar índios Apache, e desenvolve-se à volta das suas duas principais personagens; o “rapaz”, baleado junto ao coração logo na segunda página, e o juiz Holden, que nos promete, e nunca saberemos se com razão, que nunca morrerá, sádico, violador de crianças, assassino, temido mas também endeusado pelos seus pares:

“O juiz olhou à sua volta. Sentado diante do fogo estava nu, à parte as ceroulas, e tinha as mãos apoiadas nos joelhos, de palmas para baixo. Os olhos eram frestas vazias. Entre os membros do bando, ninguém fazia a mais pequena ideia do que esta postura significava, e todavia, ali sentado, ele assemelhava-se tanto a um ícone que eles começaram a mostrar-se cautelosos e falavam entre si com ar circunspecto, como se não quisessem despertar uma criatura que fosse preferível deixar dormir.”  

O bando circula constantemente por essa fronteira texana, ao longo de agrestes regiões, à caça das suas futuras vítimas e, por onde passa, deixa invariavelmente uma indelével mancha de sangue e brutalidade. Mais tarde, e de acordo com a história real, grande parte do grupo, incluindo Glanton, será por sua vez dizimado num impiedoso acto de vingança dos índios Yuma, também aqui descrito, ou romanceado, por McCarthy. Desde já alerto que esta obra não é para pessoas impressionáveis pois algumas descrições dos massacres, muitos e variados, são bastante arrepiantes:

“… e um dos delawares emergiu do fumo com um bebé despido a baloiçar de cada punho e acocorou-se junto a um anel de pedras que delimitava um monturo e ergueu-os pelos calcanhares, primeiro um, depois o outro, e bateu-lhes com a cabeça contra as pedras, de modo que os miolos jorraram pela fontanela num vómito sanguinolento,…”

Em toda a narrativa os diálogos, rudes, são frugais e parcos e o autor dá-nos a conhecer o enredo através da constante acção, que vai muito para além da simples violência, do movimento e das pausas dos seus personagens, num bem demarcado jogo do claro e escuro, luz e trevas, que cativam o leitor da primeira à última página. Os monólogos do juiz, a ler com redobrada atenção, são absolutamente brilhantes. O diálogo final entre o “rapaz”, agora já homem, e o juiz, sempre sem idade aparente, quando se encontram casualmente muitos anos depois num bar em que se desenrola um bailarico é muito forte e premonitório do terrível desenlace final. O epílogo é enigmático e deixa uma qualquer porta aberta, para o quê não se sabe bem.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Confieso que he vivido


Confieso que he vivido, 1974, Plaza & Janés Editores, S.A., é uma magnífica crónica dos tempos vividos por esse enorme poeta, talvez algo esquecido em Portugal, de nome, aliás pseudónimo, Pablo Neruda. É um testemunho na primeira pessoa do retrato da sua época, dos seus amigos, das suas aventuras e desventuras, da sua memorável passagem por este mundo. No primeiro capítulo em que dá particular atenção ao bosque chileno, e é preciso ir ao Chile para se perceber a tremenda força e beleza da natureza naquele país, lança-nos logo um parágrafo premonitório daquilo que nos espera ao longo das mais de 450 páginas deste surpreendente e bem humorado livro

De aquellas tierras, de aquel barro, de aquel silencio, he salido yo a andar, a cantar por el mundo.  

O escritor começa por nos contar em pormenor a sua infância e adolescência, o seu primeiro contacto com os livros, aliás pela mão da directora do liceu feminino de Temuco, a também laureada com o Nobel da Literatura Gabriela Mistral, a ida para Santiago em 1921 para estudar na universidade, onde começa a sua consciencialização cívica, política, revolucionária. Depois dá-nos a conhecer o seu percurso de vida já adulta, a amizade com personalidades marcantes do século XX, Alberto Rojas Giménez, García Lorca, Rafael Alberti, Diego Rivera, Aragon, Jorge Amado, Paul Éluard, etc., etc., o seu primeiro livro, Crepusculario, 1923, os seus amores, as suas viagens, o seu trabalho diplomático, político enquanto Senador, o partido comunista, a fuga para o exílio e posterior retorno, o prémio Nobel, o golpe de estado fascista de 1973, que culmina com a morte de Allende, enfim, toda uma vivência cheia de peripécias e aventuras. O divertido episódio da sua nomeação como cônsul em Rangoon, Mianmar, ou Birmânia, e da atribulada subsequente viagem para o Oriente, em 1927, desde a sua entrada na Europa por Lisboa, depois Madrid, Paris, Xangai, Tóquio, Singapura, revelam bem o carácter aventureiro de Neruda e encantam o leitor com pormenores deliciosos. Em Isla Negra, litoral oeste do Chile, a sul de Valparaíso, começa a escrever a sua obra magistral Canto General, um “poema central que agrupará as incidências históricas, as condições geográficas, a vida e as lutas dos nossos povos”. Em Confieso que he vivido, autobiografia quase romanceada, como aliás compete a um poeta da sua estatura, Neruda presenteia-nos com uma escrita fluida e minuciosa, mostra-nos o seu mundo, que foi enorme, através do olhar perspicaz e inteligente de um grande contador de histórias, abre-nos o seu pensamento político e humanista que fazem parte da sua lenda; 

Me toco padecer e luchar, amar y cantar; me tocaron en el reparto del mundo, el triunfo y la derrota, probé el gusto del pan y el de la sangre. ¿Qué más quiere un poeta? Y todas las alternativas, desde el llanto hasta los besos, desde la soledad hasta el pueblo, perviven en mi poesia, actúan en ella, porque he vivido para mí poesía, y mi poesia há sustentado mis luchas.

Embora fosse um homem de muitos mundos, Pablo Neruda nunca esqueceu as suas raízes, as lutas da sua pátria, os seus conterrâneos, o seu pueblo. Era alguém profundamente enraizado na cultura sul-americana, hispânica, chilena. Um dos grandes escritores do século passado. Sei que há pelo menos uma tradução antiga deste livro das Publicações Europa-América. Leiam-no pois ninguém se sentirá defraudado. Obrigatório.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Half of a Yellow Sun



Half of a Yellow Sun, 2007, Harper Perennial, o símbolo da bandeira da República do Biafra, também presente nas mangas das camisas do seu depauperado exército, da nigeriana Chimamada Ngozi Adiche, um nome a ter em particular atenção no futuro, prémio Orange 2007, “devora-se” da primeira à última linha. É um livro centrado em torno da amizade, das relações entre os diversos personagens, da cultura africana como contraponto da dita ocidental

“Of course, of course, but my point is that the only authentic identity for the African is the tribe, Master said. I am Nigerian because a white man created Nigeria and gave me that identity. I am black because the white man constructed black to be as different as possible from his white. But I was Igbo before the white man came.”

e da rápida degradação de qualidade de vida que a luta pela secessão do povo igbo, no sudeste da Nigéria, vai trazer. A história centra-se em torno de cinco personagens: Ugwu, um rapaz que provém de uma aldeia miserável e que vai trabalhar para Nsukka como empregado doméstico de Odenigbo, professor universitário idealista; Olanna, filha de um proeminente general que abandona a sua vida de privilégio em Londres/Lagos para ir viver com o último; Kainene, a problemática irmã de Olanna, e Richard, um inglês interessado em arte Igbo, a viver em Lagos com uma inglesa expatriada, símbolo vivo do antigo poder colonial britânico na Nigéria, e que se apaixona por Kainene. O chegar da guerra e a extrema fome que daí advém, que felizmente Adiche não testemunhou pessoalmente, fizeram-me recordar as terríveis imagens que vi na televisão no final da década de sessenta do século passado com as crianças de abdómen disforme, as moscas em volta das pessoas quase inanimadas, a falta de expressão nos olhos dos refugiados, a miséria extrema de um povo a definhar. Nunca mais me esqueço que nos anos seguintes, ainda miúdos, quando víamos alguém muito magro comentávamos com troça “eh pá, aquele vem do Biafra!”. Um conto apaixonante com uma prosa que “agarra” e nos absorve para dentro da acção, sempre centrada nas relações inter-pessoais dos personagens, e não na guerra, embora esta, com os seus horrores e privações, esteja sempre presente, que nos faz sentir como nossas as alegrias e as amarguras e infortúnios daquelas gentes em conflito consigo e com o que as rodeia. A tristeza e a esperança andam aqui sempre de mãos dadas através do génio desta já grande contadora de histórias que vem da Nigéria. Talvez porque escreve, ou tenta, segundo as suas próprias palavras, com emotional truth, embora também não saiba muito bem o que isso significa, transmite-nos uma paixão pela escrita que nos leva a aderir incondicionalmente à mensagem que pretende passar. No final é-nos revelado o enigmático,

“The Book: The World Was Silent When We Die”

Um livro com um tempo muito próprio, suave e bem escrito. Não sei se está traduzido para português.